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Jardim da Estrela.

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explore-blog:

Brian Cox
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A minha opinião sobre a homo-adopção

A decisão de permitir que um casal adopte uma criança depende de vários factores que devem ser (e normalmente são) avaliados caso a caso por técnicos. A homossexualidade do casal é um factor, pode influenciar negativamente a avaliação, mas não deve a lei impor que este factor determine a não-adopção.

Estou muito mais preocupado com as falhas do sistema que permitem que crianças de um lado e casais do outro fiquem demasiado tempo à espera uns dos outros.

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"A gracefully executed quit is a beautiful thing, opening up more doors than it closes."

Kio Stark on how to learn outside of formal education.  (via explore-blog)

(Source: , via explore-blog)

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Nunca nada está tão mau que não possa piorar

Um tipo castiço que conheço da rua, anarquista de esquerda, manifestou-se outro dia contente: o Relvas havia saído e o Tribunal Constitucional chumbado parte do Orçamento de Estado para 2013. Estava contente por essas duas razões. Pensei cá para mim que uma era irrelevante (ou apenas simbólica, vá) e a outra errada. O país estaria melhor com o não-chumbo, na minha opinião. Mas mantive-me calado.

Outra senhora ao lado comenta que discorda. Ufa - pensei. Exprimi concordância por meios não verbais até que diz ela: “devia era ter chumbado tudo!” seguido dum chorrilho de lamúrios sobre os políticos, ladrões, todos iguais, era mandá-los todos embora, e o raio que os parta para concluir com um magistral “Eu nem sequer voto. Nunca votei.”

Bravo.

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(Source: textfromdog)

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No Viaduto

O piso estava finalmente seco depois de semanas de chuva. Andar de mota com piso molhado é chato e eu estava contente por poder finalmente gozar uma condução mais livre. Era um final de tarde de Domingo e o trânsito rolava tranquilamente. Os carros à minha frente vinham a uma velocidade que não justificava ultrapassagens e portanto mantive-me a gerir as distâncias e a apreciar a forma metódica de conduzir como se de um avião com procedimentos e controladores de tráfego se tratasse. Esta ficção detalhista ajuda a manter a concentração necessária à sobrevivência e é uma obsessão-compulsão útil.

Há uma distância entre carros mais à frente que fica mesmo a calhar para a saída que eu quero tomar. Acelero um pouco antes, desacelero a meio e no fim, já à mesma velocidade, coloco-me ao lado do espaço que pretendo ocupar, curvo ligeiramente à medida que deixo a velocidade diminuir para o adequado à trajectória de saída. A saída é um ramal de duas faixas e um só sentido que cruza por cima da auto-estrada de que sai para depois subir a encosta duma montanha, ao lado das outras duas faixas que descem e ir juntar-se com outra auto-estrada, sobrecruzando-a ao virar costas a um imenso vale imediatamente antes de entrar num túnel já quase no topo da encosta. É um troço estimulante não só pela sua linha que permite uma condução elegante e por ser íngreme mas sobretudo pela vista do vale que a subida alcança. Antecipo-o sempre.

O fluxo de veículos torna-se progressivamente mais espesso e lento. Passa-se algo mais à frente, de certeza. Uso a distância que ainda tenho para me encostar à berma onde poderei passar pelos carros parados. Um vulto aparece junto à separação e atravessa a auto-estrada inteira. É uma senhora, a uns cem metros, vinda do outro lado que desce. Vem até à berma do lado direito e sobe, a correr junto aos carros. Uns quarenta e cinco anos, magrinha e não muito alta.

De onde vem? Para onde vai? O que a move? Lá em cima, no pináculo deste peculiar troço rodoviário agora cenário duma peça de final incógnito, num viaduto encurvado, no topo duma encosta, à boca dum túnel, estão umas luzes, uma ambulância. Houve um acidente e esta desesperada senhora dirige-se para lá.

Aos poucos vou-me aproximando mesmo tendo reduzido a velocidade para níveis de voyeur. O sol ilumina-nos à direita por sobre uma nuvem densa que flutua por cima das montanhas do outro lado do vale, e por pouco o não esconde totalmente. Os últimos instantes de sol deste Domingo periclitam caprichosamente no flutuar daquela nuvem. A senhora corre, sem jeito nem fôlego mas determinada em direcção à ambulância. A pequena multidão de condutores do aglomerado ordeiro e alinhado de carros assiste impotente dentro das suas jaulas à medida que avançam envergonhadamente para a vez alternada de cada um.

Lentamente emerge entre todos aflição perante o desfecho. O que vai esta senhora encontrar? Quem vai esta senhora encontrar? O que vamos nós encontrar? Entrevejo mais à frente uma mota caída e torcida nos rails do viaduto. São mãe e filho.

O polícia, portador da mensagem de alívio ou de desgraça, ao ver a senhora a aproximar-se ainda longe demais para comunicar mas perto o suficiente para se ver, fita-a e nesse instante em que os raios de sol que nos atingem podem bem ser os últimos do dia e tudo terminar sem nenhuma boa razão, sentimos a impotência, a arbitrariedade, a sorte ou o azar. O não saber se é um ou o outro.

A dez metros, sucumbe à emoção e de voz falha e boca repuxada grita “meu filho!”. O polícia levanta os braços para receber a mãe exausta num gesto da humanidade mais primordial, grita “não se preocupe” e abraçando-a diz “ele está bem”.

Passo por eles, termino a curva e entro no túnel. O sol continuou a brilhar.

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Ensino obrigatório é coerção

Claro que sim, talvez a única boa.

A propósito da discussão sobre o ensino obrigatório surgida aqui:

  1. Concordamos que a liberdade individual é para ser maximizada.
  2. Concordamos que a definição dos conteúdos educativos não deve depender do estado, i.e. escolas podem leccionar diferentes percursos educativos concorrentes, definidos autonomamente por “comunidades”…
  3. Pais são responsáveis pelas crianças e tem o direito (limitado) de coarctar a sua liberdade para o seu bem.
  4. Há valências cognitivas fundamentais que só se pode desenvolver satisfatoriamente até certa idade.
  5. É verdade que eu sou livre de comprar um ferrari mesmo que não o possa. Poder não é liberdade.
  6. É verdade que a liberdade da criança é coarctada pelo ensino obrigatório.

Até aqui todos deveremos concordar.

  1. Eu sou favorável a essa coerção por entender que necessariamente maximiza a sua liberdade. Entendo que a liberdade individual dum adulto instruído, ceteris paribus, é necessariamente superior à de um adulto sem instrução.
  2. Um adulto é livre de comprar um ferrari no sentido em que é livre de aplicar a sua mente e corpo à construção dum caminho conducente à possibilidade de o comprar. Dizemos que é livre porque em abstracto tem liberdade de vir a ter a possibilidade.
  3. Sem instrução determinadas construções são impossíveis sequer de conceber. Concomitantemente certas liberdades deixam de existir, pela simples razão de se tornarem em liberdades de fazer algo impossível. Um adulto que não sabe ler, escrever ou fazer contas tem muito menos liberdade na medida em que as possibilidades que pode construir estão severamente limitadas senão completamente vedadas.
  4. Acham realmente que alguém algum dia se viraria para os pais desgostoso por estes o terem obrigado a aprender a ler, escrever ou a fazer contas?

Não creio que este argumento se estenda ao ponto de justificar intervenção “socialista” noutras áreas. A única coisa que realmente cerceia definitiva e absolutamente as possibilidades é a mente. E é por ser a mais fundamental das ferramentas que é a única cujo desenvolvimento traz necessariamente mais liberdade ao indivíduo e portanto justifica a coerção do ensino obrigatório.

Nomeadamente este argumento não se estende às prestações sociais na medida em que a liberdade de ter um futuro com melhor bem-estar material não depende das possibilidades oferecidas num dado instante.

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Não percebo é porque é que quando se fala em cigarras e formigas, e não poder haver demasiadas das primeiras, as pessoas enfiam todas a carapuça da cigarra. Porque é que não enfiam a da formiga? Ao fim e ao cabo não concordam com a frase? Cá para mim querem é encontrar motivos para mais uma indignaçãozinha, mas devo ser eu que tenho mau feitio e acho a indignação barata.

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(Source: vimeo.com)